Visita de delegação de Borgo Valsugana a Rodeio reforça laços históricos entre Brasil e Itália e reacende debate sobre a visibilidade da diáspora italiana.
Durante uma visita oficial a Rodeio, pequeno município do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, a prefeita de Borgo Valsugana, Martina Ferrai, se emocionou ao encontrar moradores com traços, sobrenomes e fisionomias idênticos aos de sua cidade no norte da Itália.
A cena, registrada durante a inauguração da maior árvore de Natal de crochê do Brasil, virou notícia na Itália e no Brasil e se transformou em símbolo da força da comunidade ítalo-brasileira e da imigração trentina no país.
“Os mesmos rostos, os mesmos sobrenomes”
Em um discurso público diante da comunidade de Rodeio, a prefeita relatou a surpresa ao caminhar pelas ruas da cidade catarinense:
Encontramos dezenas de pessoas com os mesmos rostos e sobrenomes da nossa cidade, a mesma fisionomia.
Segundo Ferrai, a experiência criou “um fio de fraternidade e familiaridade incrível” entre Borgo Valsugana e Rodeio, emocionando a delegação italiana que participou da viagem.
A fala não ficou marcada apenas pelo tom afetivo. Para observadores, ela expõe como até mesmo autoridades italianas ainda se surpreendem com a dimensão da presença ítalo-descendente no Brasil, apesar de uma trajetória de migração amplamente documentada há mais de um século.
Rodeio: um pedaço do Trentino no Vale do Itajaí
Rodeio é considerada a “capital dos trentinos” em Santa Catarina. O município foi colonizado a partir de 1875 por imigrantes de língua italiana vindos do Tirol (região de Trento, então parte do Império Austro-Húngaro), além de colonos do Vêneto e da Lombardia.
Hoje, cerca de 80% da população é descendente direta desses imigrantes, e a cidade conserva:
- Dialeto trentino ainda falado em contextos familiares e culturais.
- Gastronomia típica, com forte presença de polenta, massas, vinhos e receitas herdadas das comunidades alpinas.
- Festas tradicionais e museus, como o Museu de Usos e Costumes Trentinos, que preserva objetos e memórias da colonização.
Esse pano de fundo ajuda a entender por que uma prefeita do Trentino, ao chegar em Rodeio, teve a sensação de estar, de certa forma, “em casa”.
Borgo Valsugana: a cidade-mãe do outro lado do Atlântico
Borgo Valsugana é uma comuna italiana da região do Trentino-Alto Ádige, província de Trento, com pouco mais de 6 mil habitantes. Localizada em um vale cortado pelo rio Brenta, é uma vila histórica cercada por montanhas, vilarejos alpinos e estradas panorâmicas que atraem turistas em busca de natureza, história e gastronomia.
Muitas famílias de Rodeio têm origem direta ou indireta nessa área do Trentino, o que explica a coincidência de sobrenomes e fisionomias ressaltada por Martina Ferrai durante sua passagem pelo Brasil.
A maior árvore de Natal de crochê do Brasil como símbolo de identidade
A visita da prefeita ocorreu durante a inauguração da maior árvore de Natal de crochê do Brasil, instalada em Rodeio como um grande projeto comunitário.
O monumento têxtil, idealizado por Mirela Maria Moretto Moser e Richard Siqueira Cortes, foi confeccionado por crocheteiras da cidade e se tornou um símbolo visual da união entre tradição, arte e memória.
Martina Ferrai destacou, em especial, um detalhe: as estrelas alpinas aplicadas na árvore, referência direta às montanhas e à cultura do Trentino. Para ela, o gesto mostra que, mesmo a milhares de quilômetros de distância, a comunidade de Rodeio ainda pensa na sua origem trentina quando cria novos símbolos para a cidade.
Coro Valsella e os 150 anos da imigração trentina
A presença da prefeita em Rodeio fez parte da turnê do Coro Valsella, grupo musical de Borgo Valsugana que viajou ao Brasil para celebrar os 150 anos da imigração trentina.
Durante a agenda em Santa Catarina, a delegação participou de:
- Apresentações culturais do coro;
- Encontros com o Círculo Trentino e autoridades locais;
- Atividades com as crocheteiras responsáveis pela árvore;
- Momentos de integração com moradores descendentes de imigrantes.
A prefeita encerrou a visita ressaltando o peso emocional da viagem, citando tanto o esforço coletivo por trás da árvore quanto o significado “familiar e de coração” da experiência de reencontro com a comunidade trentina no Brasil.
A surpresa que revela uma ausência: o olhar tardio das instituições italianas
Apesar da emoção, o episódio também escancara uma contradição. Como destacou o próprio Italianismo, a surpresa da prefeita evidencia um distanciamento histórico de parte do poder público italiano em relação às comunidades ítalo-descendentes espalhadas pelo mundo.
Alguns pontos que esse caso ajuda a iluminar:
- A Itália tem hoje milhões de cidadãos e descendentes vivendo fora do país. Estimativas recentes apontam que cerca de 12% dos italianos vivem no exterior, o equivalente a um em cada oito.
- Apesar disso, a diáspora muitas vezes permanece invisível na mídia e nas políticas públicas, incluindo temas sensíveis como cidadania, serviços consulares e participação política.
- Comunidades como a de Rodeio preservam dialetos, festas, receitas e sobrenomes há gerações, enquanto ainda enfrentam entraves burocráticos para o reconhecimento formal de direitos ligados à cidadania italiana por descendência.
A imagem de uma prefeita se emocionando ao reconhecer “os mesmos rostos e sobrenomes” no Brasil, portanto, é ao mesmo tempo comovente e reveladora: mostra quanto laço existe – e quanto ainda falta ser reconhecido de maneira concreta pelas instituições.
Por que essa história importa para quem se conecta com a Europa
Para leitores que se interessam por Europa, cidadania e viagens, o episódio envolve várias camadas:
- Identidade e pertencimento
- Rodeio é um exemplo vivo de como a cultura europeia foi reinterpretada no Brasil sem perder o vínculo com a origem.
- A visita de uma prefeita italiana reforça que esses laços não são apenas “folclore”, mas parte de uma história comum, com rostos e sobrenomes que se repetem dos dois lados do Atlântico.
- Turismo de raízes (roots tourism)
- A conexão entre Borgo Valsugana e Rodeio abre espaço para roteiros que combinam Trentino e Vale do Itajaí, tanto para descendentes em busca das suas origens quanto para viajantes interessados em cultura ítalo-brasileira.
- Debate sobre cidadania e diáspora
- Ao reacender a conversa sobre a presença dos descendentes no Brasil, o caso também joga luz nas discussões sobre cidadania italiana, consulados e políticas para italianos no exterior, temas em alta na relação Brasil–Itália.
Um encontro que vira símbolo
No fim, o que poderia ser “apenas” um ato oficial – inauguração de uma árvore de Natal e visita de um coro italiano – acabou se transformando em um símbolo poderoso de pertencimento.
Para os moradores de Rodeio, ver uma prefeita italiana reconhecer neles os “mesmos rostos e sobrenomes” é a confirmação de que a história das suas famílias não ficou perdida no passado: ela continua sendo vista, lembrada e, pouco a pouco, reconhecida também pelas autoridades da terra de origem.
E, para quem olha a Europa a partir do Brasil – seja por curiosidade, viagem ou projeto de vida – essa história lembra que a ponte entre os dois continentes não é apenas feita de avião e burocracia, mas de gente, memória e emoções que atravessam gerações.









